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O ACASO NO ESPORTE

Acaso é algo que surge ou acontece sem motivo, sem planejamento ou explicação aparente. Está diretamente relacionado à aleatoriedade, ignorando padrões ou probabilidades. No esporte, é muito comum confundir o acaso com “sorte” ou “azar”, principalmente em competições ou partidas decididas no detalhe. Mas também é comum encontrar justificativas e análises super romantizadas para enaltecer ou supervalorizar grandes feitos determinados muito mais por ordem do acaso do que por valores como superação, persistência, garra ou predestinação.

 

“Aprenda a pilotar como um homem, seu imbecil!”

No livro “O andar do bêbado”, Leonard Mlodinow cita vários exemplos de como o acaso determina algumas situações que ainda insistimos em justificar com nossos padrões. Um desses exemplos traz o caso do treinamento de pilotos da Aeronáutica israelense. Segundo os rigorosos instrututores, elogiar os pilotos por manobras bem executadas só piorava seus desempenhos, enquanto o contrário sempre surtia resultado, pois os pilotos que sofriam xingamentos depois de um mandarem mal sempre melhoravam na sequência. O que acontecia ali, na verdade, era um fenômeno chamado “regressão à média”.

 

Quando um piloto (ou qualquer pessoa que execute um treinamento rotineiro) estabelece uma média, é natural que, em algum momento, por ordem do acaso, seu desempenho seja excepcionalmente bom ou ruim numa comparação com a média estabelecida. Para quem treina disciplinadamente, é natural que haja uma melhoria lenta e constante nesse “desempenho médio”. Quem nunca teve “uma tarde brilhante” onde tudo deu certo? Ou até o contrário: aquele dia em que tudo deu muito errado. Acontece. São ocasiões aleatórias e que fogem de um padrão estabelecido. No caso dos pilotos que eram elogiados por um desempenho excelente, havia uma certa frustração por parte dos instrutores ao perceberem que, depois do elogio, eles caíam de rendimento. Parecia que elogiar só atrapalhava.

 

Essa queda de rendimento nada mais era do que o retorno ao padrão médio estabelecido. Já no caso de um desempenho abaixo da média, xingar o piloto parecia que dava resultado. Mas o que acontecia, de fato, não era uma “reabilitação motivada por cobranças e insultos”. Era, de novo, uma regressão ao padrão. 

 

O que os instrutores estavam fazendo, nesse caso, era encontrar justificativas e táticas para melhorar o desempenho de seus pilotos com base em suas observações e experiência. Mas desconsideraram o fato de desempenhos muito acima ou muito abaixo da média serem meras obras do acaso.

 

A rivalidade da dupla Cara & Coroa entra em quadra

Um outro exemplo: vamos simular uma partida de vôlei entre o Time Vermelho e o Time Azul, ok? Para determinarmos o resultado do primeiro set, vamos utilizar uma moeda e jogar “cara ou coroa”. Toda vez que der “cara”, é ponto do time vermelho. Toda vez que der “coroa”, é ponto de time azul. Você já entendeu que é um jogo bem equilibrado e que as duas equipes possuem chances iguais de vencerem, afinal, “cara ou coroa” é um dos exemplos mais clássicos para definir “sorte” ou “aleatoriedade”. E começa o jogo!

 

Na imagem abaixo (cortesia do site Ciências Olímpicas), temos toda a evolução do set: do primeiro ponto ao “set point”. Repare que, em algum momento do jogo, o time azul chegou a abrir oito pontos de vantagem (ou seja, a moeda “deu coroa” por oito vezes consecutivas, por mero acaso). Mas o jogo seguiu e o time vermelho demonstrou reação, chegando a empatar o set em 16 a 16. A partir daí, uma surpreendente reação do time vermelho foi determinante no final do set e a equipe venceu o set por 25 a 22.

 

 

Agora imagina esse jogo sendo transmitido na televisão com um daqueles narradores extasiados e um comentarista cheio dos pitacos. Eles possivelmente viriam com alguma justificativa para explicar a boa vantagem de oito pontos do time azul na primeira metade do set. Depois, novas explicações seriam dadas para diagnosticar a heróica virada do time vermelho (o técnico acertou a mão, o time sentiu a responsabilidade, a torcida mostrou sua força…) sendo que, como sabemos, foi tudo obra de uma disputa de cara ou coroa. Tudo obra do acaso.

 

Claro que o objetivo desse texto não é dizer que exatamente tudo no esporte é obra do acaso. Não é loteria. Mas também seria um erro dizer que o acaso inexiste e tentar encontrar justificativas para certos acontecimentos que, muitas vezes, são analisados e explicados de maneira desnecessária.

 

Inclusive, fica aqui uma sugestão que pode até ser divertida nessa época de “seca” de eventos esportivos inéditos: pegue uma moeda (ou um dado) e simule como seria o desdobramento de uma partida ou de um torneio na modalidade que você acompanha ou com os times pelos quais você torce. Conforme os acontecimentos vão evoluindo, faça o papel de cronista e tente reportar os resultados com a emoção e o poder de análise que seu público merece. Que tipo de manchetes esse seu simulado renderia? (um dica: um bom cronista sabe fazer até o jogo mais morno parecer eletrizante no dia seguinte)

 

Causas do acaso e consequências em sequência

Se esse texto já fez você entender a importância e o sentido do acaso em resultados esportivos, ótimo! Missão cumprida! E se você, amante do esporte, considera que o resultado de competições esportivas, determinadas pelo acaso ou não, são muito mais do que entretenimento para quem assiste ou um ganha-pão para quem compete, segura mais um pouco.

 

Não é exagero dizer que a vitória de um atleta ou de uma equipe pode influenciar direta e indiretamente na economia de determinada cidade, região ou país. Tem atletas que ficam entre a glória e o precipício em um saque decisivo, em um lance livre ou na cobrança de um pênalti. Os exemplos são incontáveis. E as consequências de alguns resultados podem ter tido uma importância muito maior do que imaginamos. Por exemplo: como teria sido a aceitação do Plano Real, a volatilidade da economia, a autoestima do brasileiro e o poder de compra da população se o Brasil tivesse perdido a Copa de 1994? (antes de responder essa pergunta, lembre-se de todo o contexto social, econômico e político daquele Brasil em luto pelo Senna, governado por Itamar Franco e traumatizado pelo Collor).

 

Ou como teria sido a história do basquete se os Estados Unidos tivessem derrotado o Brasil de Oscar Schmidt na final do Panamericano de Indianápolis, em 1987? Teríamos a “revolução da cesta de 3 pontos”? Teríamos o lendário Dream Team convocado e jogando para ganhar nos Jogos Olímpicos de 1992? Teríamos a supervalorização de astros da NBA que elevaram o status das celebridades esportivas? Teríamos Michael Jordan contracenando com o Pernalonga no filme Space Jam?

 

Esses foram só dois exemplos para dizer que alguns resultados esportivos podem (“podem”) ter desdobramentos incalculáveis e para além do esporte. E que muitos desses resultados também podem ser determinados pelo acaso, seja numa disputa de “cara ou coroa”, num pênalti mal batido ou num arremesso à distância que acertou a cesta em cheio.

 

Mas o que resulta ou pode resultar num feito do acaso (o que também pode ser chamado de “acidente”)? Já sabemos que não se trata de algo premeditado, previamente calculado ou planejado. Do contrário, não seria considerado um mero “acaso”. As causas do acaso (se é que você acredita nisso) podem ser as mais improváveis e aparentemente desconexas que você possa imaginar. Num universo de probabilidades incalculáveis, qualquer fator externo pode fazer toda a diferença em um ato protagonizado por um atleta: a temperatura, a pressão do ar, a gravidade, a umidade, o som ambiente, a condição física e psicológica do atleta, seu peso, sua alimentação, sua frequência cardíaca, sua pressão arterial… E, não, não temos como prever ou interferir.

 

O acaso pode até ser um precursor do caos e desafiar todas as lógicas ou padrões, mas ele também faz parte de um dominó de “causas e consequências”. O fato de não ser algo planejado ou estar além do controle humano não significa que seja algo totalmente aleatório e imune de elementos causadores. Acontece que esses elementos (que podem ser infinitos e invisíveis) não estão na alçada do atleta, do treinador ou do jogador de “cara ou coroa”. Não estão ao nosso alcance, mas existem. Não devem ser ignorados, pois toda causa tem suas consequências. E nenhuma consequência é somente obra do acaso.

 

REFERÊNCIAS

 

HELENE, OTAVIANO . Um pouco da física do cotidiano. 1a.. ed. , 2016.

MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. 

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