Teria sido melhor ir ver o Pelé

Em tempos de ativismo levado às vias de fato, manifestações anti-racismo e gritos de “basta” contra os racistas, não há como esconder um sentimento de esperança de vermos a sociedade evoluir, rever alguns conceitos e repudiar atos de preconceito. Tomara que tudo isso que estamos vivenciando, hoje, ajude as pessoas a desenvolverem um olhar mais atento a gestos, posturas e falas pejorativas que inferiorizam seres humanos pela cor de sua pele. Tomara!

 

Mas esse texto não será sobre ativismo ou sobre a onda do “Black Lives Matter”. Vamos falar de um ser humano, negro, que ajudou muito no combate ao racismo mesmo sem nunca ter levantado bandeiras (pelo menos até recentemente). Estamos falando do maior jogador de futebol de todos os tempos: o Rei Pelé!

 

Edson Arantes do Nascimento, aos 17 anos, destacou-se na Copa do Mundo de 1958, quando o Brasil conquistou seu primeiro título mundial. Foi só o início de uma trajetória vitoriosa que nenhum outro jogador chegou perto de repetir: venceu três Copas do Mundo em 12 anos e se tornou o Rei do Futebol, chegando a marcar mais de mil gols na carreira antes de completar 30 anos de idade. Incomparável!

 

Mas talvez o maior feito de Pelé, mais até do que se tornar o principal nome do esporte mais popular do planeta, tenha sido sua silenciosa vitória contra o preconceito racial. Mesmo sem nunca ter transformado seu talento ou sua carreira em ativismo, Pelé foi uma figura emblemática para o resgate da autoestima do negro no Brasil.

 

Foi a primeira vez que um negro de origem humilde e sem privilégios se tornava fonte de orgulho nacional e referência no mundo. Pelé representava a possibilidade de um homem negro, na condição de simples, honesto e batalhador, vencer na vida. E de se tornar o melhor do mundo em um esporte que teve suas origens na elite britânica, até então dominado por brancos e europeus. Quantos devem ter se identificado e se inspirado nesse exemplo? Quantas crianças negras e pobres, marginalizadas pela sociedade, perceberam que também podem ir longe graças ao exemplo de Pelé?

 

E olha que estamos falando de um ambiente totalmente contraditório e controverso gerado pelo racismo à moda brasileira. Naquela época, a ideologia do “branqueamento” já começava a ser confrontada pelas ideias de Gilberto Freyre e por pesquisadores, como Florestan Fernandes, contratados pelo Projeto Unesco. Já o sociólogo Carlos Hasenbalg, anos depois, veio a afirmar que o preconceito e a discriminação raciais vinham adquirindo novas funções e significados na estrutura social desde a escravidão. Na prática, os jogadores negros continuavam enfrentando barreiras visíveis e invisíveis geradas pelo preconceito racial. A imagem de Pelé, contudo, também contribuiu para a ideia de um Brasil que deu certo ao personificar o jogador negro que foi capaz de ascender socialmente graças ao talento. “De certa forma, ele também representa nossas contradições”, afirma a jornalista e escritora Angélica Basthi.

 

Autora do livro “Pelé: Estrela Negra em Campos Verdes” (Garamond, 2009), Angélica chega a comentar sobre a relação de Pelé com o racismo: “Pelé nunca se envolveu diretamente com o problema racial deste país, mas isso não significa que ele não tenha enfrentado problemas de racismo ao longo da sua trajetória”, afirma. “Na Copa de 1958, por exemplo, uma reportagem afirmava sobre a passagem do jogador pela Suécia: ‘Ao ver Pelé, a criança loura solta a mão da babá e corre chorando: mamãe, mamãe, ele fala'”, conta.

 

Recentemente, contudo, Pelé quebrou o silêncio e aderiu à iniciativa #BlackOutTuesday, que pede um momento de reflexão e protesto contra o racismo. A ideia surgiu após o assassinato de George Floyd no último dia 25 de maio. Pelé participou da ação ao publicar uma imagem toda preta em seu perfil no Instagram, seguindo as instruções dos organizadores do movimento, que pedem para que nenhuma outra atividade seja realizada nas redes sociais nesta terça-feira. Outras personalidades do esporte também aderiram ao movimento, como os ex-boxeadores Mike Tyson e Evander Holyfield, o ex-velocista Usain Bolt, os jogadores de basquete LeBron James e Stephen Curry e a tenista Naomi Osaka, a atleta mais bem paga do mundo em 2019.

 

O futebol nunca seria o mesmo sem Pelé. O jogador foi um divisor de águas na história do esporte e se tornou o brasileiro mais famoso do mundo. E é aqui que a magia do esporte mostra seu poder de mudar o mundo sem a influência perversa de poderosos que estão no controle. Diferente da indústria da música, que “tirou o rock dos negros” para criar artistas brancos, garbosos e populares com suas guitarras, roupas e cabelos estilosos, o esporte consagra (quase sempre) aquele que mais tem talento e faz por merecer. E aí não existe distinção de cor de pele, religião, classe social ou escolaridade. Foi a arma que Pelé usou para silenciar os racistas. Sem cartazes, sem frases escondidas debaixo da camiseta, sem textão em mídia social. Pelé fez o mundo inteiro aplaudir seu talento e reconhecer seu valor. Ele era e sempre será o Rei!

 

FONTES:

 

BASTHI, Angélica. Pelé: estrela negra em campos verdes. Rio de Janeiro; Garamond; Fundação Biblioteca Nacional, 2008.

 

Pelé foi emblemático para o resgate da autoestima do negro no Brasil, diz autora

Pelé adere à campanha nas redes sociais em protesto contra o racismo

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