Quando a lenda vira um mortal

Diz-se que chegar ao topo é difícil, mas manter-se no topo é mais difícil ainda. Perdemos isso de vista quando vemos atletas dominarem suas modalidades. No entanto, o fiasco da passagem de Sebastian Vettel pela Ferrari nos faz lembrar que essa máxima é válida.

 

Vettel surgiu na segunda metade dos anos 2000 como uma grande promessa do esporte – o alemão mostrou suas credenciais ao vencer pela primeira vez na Fórmula 1 em 2008 no lendário circuito de Monza com o modesto carro da Toro Rosso. Não tardou para Vettel tomar de assalto a maior categoria do automobilismo, se tornando o campeão mais jovem da categoria em 2010 e estabelecendo uma hegemonia ao ganhar 4 títulos seguidos com a Red Bull.

 

 

Com 26 anos de idade Vettel já era tetra-campeão mundial e não seria de espantar se o alemão igualasse as maiores marcas do esporte nos anos seguintes – a título de comparação, Ayrton Senna conquistou seu primeiro título aos 28 anos de idade, numa época em que a precocidade não fazia parte da Fórmula 1. Assim, Vettel foi para a Ferrari, com a expectativa de levar a equipe a vencer campeonatos novamente e perseguir as marcas individuais de Schumacher.

 

Mas as coisas não saíram como esperado. A Mercedes conseguiu o maior domínio que o esporte já viu e a Ferrari até ensaiou ser uma rival, mas sem muito sucesso. Em 2017, Vettel e Ferrari esboçaram uma reação mas um fim de temporada cheio de quebras tirou a Ferrari do páreo. E em 2018 a frustração ganhou contornos mais dramáticos. A Ferrari foi melhor na primeira metade do campeonato, mas o Grande Prêmio da Alemanha foi um divisor de águas – Numa pista úmida, Vettel liderava com folga quando cometeu um erro e abandonou. Desde então a trajetória de Vettel na Ferrari é mais lembrada por batidas e rodadas, do que por vitórias ou grandes atuações. 

 

Sem vencer campeonatos e vendo Hamilton empilhar taças e tomar o protoganismo que antes lhe pertencia, a derrocada de Vettel teve mais um estágio em 2019 com a chegada do jovem Charles Leclerc à Ferrari. Leclerc era a grande aposta da Ferrari para o futuro e a questão que ficava era quão longe estaria este futuro. 

 

Rapidamente Leclerc desafiou Vettel e ficou claro que ele não esperaria sua vez chegar para assumir o posto de principal piloto da equipe italiana. E na mesma Monza que consagrou Vettel no passado, veio o golpe final na derrocada do alemão. Leclerc venceu guiando o carro vermelho em solo italiano – um sonho para qualquer piloto que corre de Ferrari e algo que Vettel nunca conseguiu. Para piorar, Vettel cometeu mais um de seus erros nessa corrida. O futuro virou presente e o presente virou passado.

 

Ainda temos a temporada de 2020, caso ela aconteça, com Vettel pilotando o carro vermelho, e ele pode conseguir um título que parece bem improvável. Mas a sua saída já está confirmada. Havia a expectativa de que Vettel seguisse os passos de Schumacher na Ferrari e desafiasse os recordes de seu compatriota. Mas Vettel acaba se junto a outros campeões como Prost e Alonso que chegaram com expectativas à Ferrari e saíram sem nenhum título. Para piorar, Vettel entrou na Ferrari com a expectativa de bater recordes e sai da equipe com a reputação arranhada por vários erros em momentos decisivos.

 

 

O fiasco de Vettel na Ferrari também espanta pelo fato de ocorrer numa idade onde não se esperaria declínio de Vettel, pelo contrário – Seria o momento onde forma física, experiência e maturidade estariam na melhor combinação possível. Mas Vettel acumulou vários erros nos últimos dois anos embora tenha sido rápido neste tempo. Difícil saber o que motivou essa queda – se foi a pressão de correr pela Ferrari, desinteresse pelo esporte ou algo que não veio a público, e não cabe a mim fazer juízo sobre isso. Mas o momento de Vettel mostra que mesmo as lendas são feitas de carne e osso, ainda que vivam numa bolha como é o caso da Fórmula 1.

 

Com 32 anos de idade, Vettel poderia seguir na Fórmula 1 por um bom tempo, mas é difícil de imaginar que o alemão continue na categoria depois de 2020 se não tiver um carro competitivo, o que parece improvável. Assim, Vettel se encaminha para uma aposentadoria tão precoce quanto sua ascensão no esporte.

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