Do (O Caminho)

Sempre que eu olho alguma matéria, artigo ou mesmo conversando com outros praticantes, o tema do “Do”, ou “Caminho” das artes marciais parece uma recorrente entre os praticantes mais antigos. Não falo do pessoal que pratica alguma arte para apenas exercício ou defesa pessoal, mas de quem procura algo a mais dentro de um tatame.

 

Pra quem não sabe, a ideia por trás do Caminho é trazer uma carga filosófica dentro de uma prática, seja ela taekwondo, judo, testudo, karatedo (sim, o nome completo do karate é esse). Através da prática o aluno deve trazer um conteúdo mais profundo dentro de cada chute, soco, chave de braço, respiração, enfim, tudo o que eventualmente fizer no tatame – e que depois fará fora dele. A aula de arte marcial torna-se um sumário em uma hora do teu dia (ou o tempo que um treino leva na tua arte) do que deveria aprender e aplicar em todos os aspectos da vida: disciplina, foco, resiliência. Talvez um texto sobre Zen possa se aprofundar mais nisso, mas esse parágrafo traz para o não praticante uma ideia do que estaria por trás de tudo.

 

Pois bem, quando me graduei 4º dan de faixa preta, tive que escrever um artigo para a banca. Um ensaio de tema livre sobre arte marcial, e o tema que eu escolhi foi exatamente esse: o objetivo filosófico na prática da arte marcial. E comecei a escrever sem saber muito onde eu iria parar.

 

Foi um grande aprendizado, claro, mas também tive grandes surpresas pesquisando autores de filosofia oriental e ocidental, bem como fundadores dos mais diversos estilos de luta que conheço, além de entrevistas com mestres e amigos praticantes. Um passeio entre livros sobre confucionismo, taoísmo e budismo, passando por artigos sobre Gichin Funakoshi ou Mas Oyama, estudos sobre o Budo e como ele se desenvolveu nas diferentes culturas do sudeste asiático, tangenciando os kwans (escolas) coreanos de formação do taekwondo.

 

Foram algumas páginas que nada passam dos devaneios de um candidato a mestre que queria entender mais profundamente o que eu ou o seu amigo do lado no tatame quer com aquela série de 20 chutes onde a correção de 20º do pé de apoio não sai de jeito nenhum, ou do porquê de colocar seu corpo em um confronto físico direto com uma pessoa que fora dali poderia (e irá) dividir uma mesa de bar para falar de qualquer outro assunto depois.

 

Nenhum de nós é um samurai moderno, um guerreiro defendendo a honra de algum senhor de terras num Japão (ou Coréia) feudal. Uma técnica mal executada em nada tem a ver com a diferença entre a vida e a morte na maioria dos casos, e traduz-se apenas como um aprendizado ou no máximo um pé/mão/braço torcido ou quebrado. Somos engenheiros, funcionários públicos, bancários, publicitários, buscando um exercício físico com algum propósito maior. Os conflitos de hoje são outros. Não estamos buscando a excelência em uma arte para a sobrevivência em um campo de batalha literal. Os conflitos de hoje são internos, ocorrem dentro da nossa mente.

 

Dentro do taekwondo trabalhamos o conceito de Surion, ou seja, polimento de corpo, mente e espírito. E esses são os instrumentos a serem afiados para responder melhor aos enfrentamentos que temos a cada dia. A cada treino, cada chute, cada correção técnica evoluímos uma fagulha daquilo que pretendemos. Lidamos com grandes vitórias pessoais e gigantescas frustrações naquela técnica que insiste em não sair. Somos obrigados a encarar a nossa falta de talento, de força, de jeito, e tentar sobrepujar tudo aquilo que não nos deixa evoluir. Dentro do tatame, somos obrigados a encarar as nossas limitações e admitir a nossa incapacidade, sem nisso estarmos inertes para nunca fazer nada. E esse é o ponto: é numa aula que o praticante busca todas essas respostas, nem sempre conseguindo nem mesmo uma pista sobre elas.

 

E é nesse momento de aceitação, que vem com o tempo, onde o praticante se dá conta de uma verdade que parece tangenciar toda e qualquer arte: com o tempo, o praticante deve se desprender do instrutor para explicar toda e qualquer atitude, bem como a validação de todos os seus esforços. O significado de sua prática deve ser uma questão pessoal e é recompensada com seus próprios motivos e sentimentos. Ueshiba Kisshomaru, um mestre praticante de aikido, disse: “Se treinar todos os dias, no momento que atingir o fim de sua vida vai poder olhar para trás e dizer ‘Eu treinei!’.” E o ponto-chave das artes marciais é justamente esse: o treinamento.

 

A prática filosófica das artes marciais é essa perfeição que nunca chega, tanto de técnicas quanto de atingir uma excelência como ser humano e entrar em paz consigo mesmo. E ela é traduzida no treinamento, na prática, no caminho. Semana após semana, ano após ano. Os insights, o olhar para dentro, tudo surge de maneira quieta, são alimentados e desabrocham para uma compreensão maior.

 

O treinamento em si é o caminho.

Gostou? Show! Bora compartilhar com a galera?

Share on whatsapp
Share on telegram
Share on twitter
Share on linkedin
Share on facebook
Share on email

Conheça as Campanhas

Explorar

Realize seu Sonho

Criar Campanha

Login

Nunca passou por aqui?