Cafeína e Desempenho Esportivo

Cafeína e Desempenho Esportivo

Breve relato de um pesquisador:

A cafeína (CAF) é um alcaloide do mesmo grupo das teínas, onde também está incluído o guaraná. Tem forte potencial farmacológico, apesar de não ser considerado um fármaco. É comercializada de forme livre, sendo o psicoativo mais consumido do mundo, e seu maior consumo, em torno de 75%, é pelo café. A literatura é bastante vasta quando nos referimos à CAF como um composto que promove um efeito ergogênico, ou seja, ela melhora o desempenho (se preferir, “performance”), principalmente em provas de resistência (se preferir, “endurance”).

 

A CAF é metabolizada principalmente no fígado por ação enzimática, assim como outras drogas: álcool, tabaco e medicamentos (lidocaína, por exemplo). Ela tem efeito sobre muitos sistemas do organismo, sendo mais evidente no sistema nervoso central, mas também nos sistemas musculares e cardíaco. São diversos os fatores que podem influenciar no metabolismo hepático da CAF, entre eles, quantidade por kg de massa corporal, dieta, uso de drogas, gênero, estado de hidratação, condição atlética, tipo de atividade ou exercício físico, consumo habitual de café ou produtos que contenham CAF e a genética do indivíduo.

 

A CAF tem a capacidade de mobilizar os substratos lipídicos no metabolismo energético, preservando o componente glicolítico, neste caso, o glicogênio muscular e hepático. A CAF, então, pode melhorar, e não inibir, a ressíntese de glicogênio muscular durante a fase de recuperação do exercício. Também diminui a percepção de esforço e dor. Mas, para que todos esses efeitos possam acontecer, a literatura é clara: a dose de CAF tem que ser entre 2 e 6 mg/kg de massa corporal. E não existe benefício adicional se consumida em dosagens superiores a 9 mg/kg de massa corporal.

 

É importante lembrar que desde 2004 a CAF foi retirada da lista de substâncias proibidas da WADA (World Anti-Doping Agency), porém permanece na lista de substâncias monitoradas.

 

A CAF pode melhorar o estado de vigilância durante os períodos de privação de sono, além de ser uma ajuda eficaz durante períodos longos de exercício exaustivos que exigem muita concentração. Apesar de benéfica para exercícios de longa duração, o aprimoramento é específico para atletas bem condicionados. Curiosamente, esse dado foi levantado a partir de estudo com atletas, e não com praticantes habituais/recreacionais.

 

Chama a atenção que a literatura é inconsistente quando aplicada a atividades e/ou exercícios de força e potência no esporte. A CAF melhora (se preferir, “aumenta”) os níveis de dopamina, neurotransmissor que faz você se sentir feliz. Muitos estudos apontam a CAF como um competidor mimético dos receptores de adenosina, que, entre muitas funções, impede que você fique com sono.

 

Não existe na literatura consenso quanto a capacidade diurética induzida pela CAF durante atividade e exercícios físicos. Vários bons estudos falharam em tentar demonstrar qualquer alteração na taxa de suor, perda total de água ou alteração negativa no balanço hídrico, que poderia afetar de forma negativa o desempenho esportivo, mesmo quando o atleta submetido a estresse térmico.

 

Mas, a CAF também pode trazer efeitos adversos como insônia, aumento do nervosismo, ansiedade, entre outros. Existem evidências que associam o consumo de CAF ao aumento do risco de infarto do miocárdio, aumento da pressão artéria e hipertensão. Esses achados estão relacionados ao tipo de metabolizador genético. Estudos apontam que na população mundial existam indivíduos que são metabolizadores rápidos (que seriam afetados positivamente pela CAF) e metabolizadores lentos (que seriem afetados negativamente pela CAF).

Muitas ainda são as dúvidas sobre todas as ações da CAF no organismo, seja em nível fisiológico, metabólico, bioquímico ou molecular.

 

Referências

1 ALGRAIN, H. A.; R. M. THOMAS; A. E. CARRILLO, et al. The Effects of a Polymorphism in the Cytochrome P450 CYP1A2 Gene on Performance Enhancement with Caffeine in Recreational Cyclists. Journal of Caffeine Research, Vol 6, No 1, 2015.

2 COSTILL, D. L.; G. P. DALSKY; W. J. FINK. Effects of caffeine ingestion on metabolism and exercise performance. Medicine and Science in Sports. 10(3), 155–158. 1978.

3 GOLDSTEIN, E. R. T. ZIEGENFUSS, D. KALMAN, et al. International society of sports nutrition position stand: caffeine and performance. J Int Soc Sports Nutr. 7(1): 1-15, 2010.

4 GRGIC, J. Are There Non-Responders to the Ergogenic Effects of Caffeine Ingestion on Exercise Performance? Nutrients. 10, 1736. P. 1-5, 2018.

5 GUEST, N.; P. COREY; J. VESCOVI; A. EL-SOHEMY. Caffeine, CYP1A2 Genotype, and Endurance Performance in Athletes. Medicine & Science in Sports & Exercise. 50(8): 1570-1578, August, 2018.

6 NEHLIG, A. Interindividual Differences in Caffeine Metabolism and Factors Driving Caffeine Consumption. Pharmacol Rew. 70: 384-411, April, 2018.

7 PALATINI, P.; G. CEOLOTTO; F. RAGAZZO et al. CYP1A2 genotype modifies the association between coffee intake and the risk of hypertension. Journal of Hypertention. Vol 27, No 8, 2009.

8 PICKERING, C. & J. KIELY. Are the Current Guidelines on Caffeine Use in Sport Optimal for Everyone? Inter-individual Variation in Caffeine Ergogenicity, and a Move Towards Personalised Sports Nutrition. Sports Med. 48:7–16, 2018.

9 SOUTHWARD, K., K. J. RUTHERFURD-MARKWICK, A. ALI. The Effect od Acute Caffeine Ingestion on Endurance Performance: A systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 48(8), pp. 1913-1928, 2018.

10 YANG, A.; A. A. PALMER; H. WIT. Genetics of caffeine consumption and responses to caffeine. Psychopharmacology, 211:245–257, 2010

 

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