Rodrigo Quevedo no blog da Alster - Transformamos o esporte a partir da colaboração

Fraude ou Doping? A Natureza e seus caprichos

Quando falamos em doping sempre nos vem a mente componentes químicos como a EPO (eritropoetina, aumenta taxa de oxigênio no sangue), GH (hormônio de crescimento, da força), oxandrolona (droga anabólica simpatomimética análoga de testosterona, também dá força), entre outras drogas, todas proibidas e na lista de substâncias proibidas WADA (World Anti-Doping Agency). Ou pensamos, mais atualmente, em doping genético, sanguíneo (ambos também chamados de biológicos) e mais recentemente no ciclismo, o doping mecânico. Mas não serão desses tipos de doping ou fraudes que vou discorrer aqui, porque acredito que desses vocês estão cansados de saber, ou falamos outra hora. Vamos falar dos caprichos da Natureza.

 

Vamos começar por Dora Ratjen, atleta de salto em altura alemã. Campeã no Campeonato Alemão de Atletismo de 1937, saltando 1m63cm; campeã Europeia em 1938, quebrando o recorde mundial de salto com a marca de 1m67cm e ficando na quarta colocação da Olimpíada de Berlin de 1936. Só tinha um problema, ela era homem, Heindrich Ratjen. Dora foi registrada e criada como mulher pela sua família e sempre acreditou nisso, até ter a sua verdadeira sexualidade revelada. E segundo os médicos da época, algo bastante controverso, pois sua genitália não era normal, o que dificultava bastante a definição do seu sexo biológico.

 

Outro caso muito interessante é da polonesa Stanislawa Walasiewicz (também conhecida como Stella ou por Stefania). Foi uma corredora de 100m rasos. Corredora porque disputou todas suas provas no feminino, mas poderia ter disputado no masculino também. Stanislawa (vamos tratar como “ela”) tinha genitália ambígua, e foi considerada hermafrodita. Os médicos a classificavam tanto quanto homem quanto mulher, e não havia impedimento, pelo que se sabe, de competir em uma ou outra categoria, mas não poderia nas duas. Foi medalha de ouro nas Olímpiadas de Los Angeles de 1932 e prata em Berlin.

 

Qual a relação desses dois casos com doping? Ambas atletas tinham suas taxas de produção de testosterona mais elevadas que as suas adversárias. É de conhecimento geral que testosterona aumenta a força, o que acabou sendo uma vantagem para as duas competidoras.

 

Vamos a mais dois casos. Maria José Patiño foi campeã espanhola dos 100m com barreiras em 1985. Mas foi banida do esporte por apresentar cromossomos XY, ou seja, foi considerada homem. Entretanto, Maria José Patiño era mulher e tinha algo de especial, ela era totalmente insensível a testosterona, ou seja, mesmo produzindo esse hormônio de forma anormal, este não tinha efeito sobre seus tecidos e músculos (principalmente), o que lhe daria uma enorme vantagem sobre suas adversárias. Levou anos batalhando nos tribunais para rever seu direito de competitividade, e conseguiu. Hoje ela faz parte do Comitê Científico do Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) e da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional. Ela trata dos casos de intersexualidade e transexualidade no desporto de alto rendimento.

 

Já um caso mais recente é de Casper Semenya, atleta da África do Sul, campeã mundial dos 800m em Berlin/2009. Casper foi banida das provas acima dos 400m até 1600m, ou seja, onde ela tem maior destaque. Mas nada impede que ela possa competir nos 100 e 200m ou em provas de fundo. Casper Semenya nasceu com traços intersexuais e produz níveis atípicos de testosterona (acima de 5 nanomol/L de sangue), o que lhe dá vantagem sobre suas adversárias. É um caso de hiperandrogismo. O Comitê sugeriu que ela administrasse inibidores de testosterona que deseja competir na modalidade em que é especialista. Obviamente que ela não aceitou, pois quer competir como ela realmente é, sem contar que esse tipo de sugestão viola seus direitos humanos. Casper acabou migrando para provas de 5000m rasos, pois perdeu na Corte Arbitral a condição de poder competir nas provas de meio fundo.

 

Um último caso, Eero Mäntyranta, esquiador finlandês de cross country de elite. Ele dominou o esporte entre 1960 e 1972. Foram 7 medalhas nas Olímpiadas de Inverno, três de ouro, duas de prata e duas de bronze; e cinco medalhas em mundiais. Mas o que tinha esse atleta de tão especial? A sequência do seu gene EPOR, ou seja, do seu receptor de eritropoetina (EPO, que é produzido nos rins). Eero tinha a capacidade de gerar maior eritropoiese, ou seja, mais glóbulos vermelhos, o que melhorava a condução e troca dos gases da respiração, melhorando (e muito) seu desempenho. Seu receptor tinha uma mutação que o mantinha ativo constantemente.

Eero foi objeto de estudo, e os pesquisadores (geneticistas) descobriram que não era só ele, mas que outros membros da família também tinham essa variante. Isso provou que ele não estava fazendo uso de EPO, substância muito utilizado no meio esportivo (até hoje) para melhorar o desempenho e se obter vantagem sobre outros adversários.

 

Esses são apenas alguns casos que poderíamos discutir aqui. E possivelmente muitos outros. Vale lembrar que este texto não é sobre doping ou fraudes, mas sobre como a Natureza desenvolveu essas pessoas, esses atletas, tornando-os especiais e com capacidades diferentes de seus pares (atletas neste caso). Nenhum escolheu ter mais ou menos testosterona, mais ou menos receptores de EPO, ou serem mais fortes, ou mais rápidos. São pontos fora da curva.

 

Já escutei em muitas conferências, mais de uma vez, até onde o esporte é verdadeiramente democrático e acessível? Para todos ou para alguns. Essa pergunta tem gerado muito desconforto aos dirigentes esportivos. Maria José Patiño levantou a bandeira de novas normativas a cerca desses fenômenos. Algumas federações já estão se propondo dialogar acerca deste tema para melhor regular esses casos e, assim, tornar mais justo e acessível o esporte. Ainda se tem muito preconceito e discriminação. Muitos atletas banidos perguntam por que Michael Phelps pode continuar? É de conhecimento que ele produz geneticamente menos ácido lático que outros atletas, o que lhe permite tolerar melhor a fadiga. As pernas mais cumpridas de Usain Bolt? Não lhe permite correr mais rápido? O diálogo segue totalmente aberto. Ainda não se tem um consenso.

 

Se o esporte, seja ele qual for, é para todos, então que possamos ver casos como esses, pontos fora da curva, terem a oportunidade de mostrar seus talentos esportivos, mesmo com a ajuda da Mãe Natureza. Por que não criar categorias? Já que o ser humano categoriza tudo.

 

REFERÊNCIAS

1 A de la Chapelle, A L Träskelin, and E Juvonen. Truncated erythropoietin receptor causes dominantly inherited benign human erythrocytosis. Proc Natl Acad Sci U S A. 1993 May 15; 90(10): 4495–4499.

 

2 Eero Mäntyranta Archived 9 March 2016 at the Wayback Machine. sports-reference.com

 

3 Caster Semenya expected to be affected by IAAF rule changes”. BBC Sport. Retrieved 26 April 2018.

 

4 Dora Ratjen, Sports-Reference.com. Retrieved 31 August 2010.

 

5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Stanis%C5%82awa_Walasiewicz. Consultado em 28 de abril de 2020.

 

6 http://comiteolimpicoportugal.pt/mulheres-com-cromossomas-xy-sempre-houve/. Consultado em 28 de abril de 2020.

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