Qual é o lugar do ciclista nas ruas?

* contém cenas fortes.

Será que mais de 200 anos depois, o alemão Karl von Drais imaginaria que sua invenção, a máquina corredora, a Draisine (assim mesmo, com “D” maiúsculo) ou velocípede, seria chamada de bicicleta e que ela seria capaz de tornar o trânsito menos caótico, se tornaria uma excelente opção de saúde, além de benéfica ao meio ambiente? Acho que sim! Porque era um homem a frente do seu tempo. Mas, uma coisa ele não previu: que a educação das pessoas se tornaria muito diferente nos tempos mais modernos, e essa é a parte mais lamentável.

Eu sou um usuário diário da bicicleta. Mesmo em tempos de pandemia de COVID-19, se preciso sair para fazer qualquer coisa, uso a bike. Mas, o que vem me chamando a atenção há muito tempo é o comportamento das pessoas que usam a bike, dos motoristas e dos pedestres. Por isso, vou usar o espaço para fazer um relato que, do meu ponto de vista, é educacional e informativo.

 

Outro dia estava analisando com muita calma o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e percebi que o nível de educação em mobilidade urbana, em Porto Alegre pelo menos, é muito ruim, infelizmente. Boa parte da população não conhece as regras de uso das ciclovias, ciclofaixas, ciclofaixas de lazer e ciclorrotas da cidade. Não pretendo dar uma aula do CTB, isso é algo que TODOS DEVERIAM TER CONHECIMENTO! A minha ideia neste texto é gerar desconforto (tomara que eu consiga) e, principalmente, uma discussão salutar.

 

 

Primeiro de tudo, em qualquer uma delas, é EXPRESSAMENTE PROIBIDO o uso por pedestres ou veículos motorizados de qualquer natureza. Ou seja, não pode caminhar ou correr nestas vias, com exceção das ciclofaixas temporárias ou de lazer ondem pedestre es bikes COMPARTILHAM o espaço para lazer. Um exemplo é a nossa 3ª Perimetral aqui em Porto Alegre, onde a faixa que é exclusiva para ônibus é liberada para lazer, para bike, skate, patinete, caminhadas, corrida, piquenique, quase tudo. Correr ou caminhar na ciclovia é muito perigoso.

 

Você acha que estou exagerando? Eu corro duas vezes por semana nas ruas próximas à minha casa e sempre corro pela Avenida Ipiranga. Direto vejo pessoas correndo e caminhando e é bastante frequente acidentes na ciclovia. Em geral, os corredores não estão prestando atenção, obrigando que os ciclistas tenham que desviar. A maioria dos ciclistas não dá o menor sinal de que está vindo, fora que os pedestres estão quase sempre com fones de ouvido, imersos nas suas músicas ou podcasts, e ao menor descuido, tá lá um corpo estendido no chão! Parafraseando o narrador Silvio Luiz. E, das poucas vezes que vi isso acontecer (foram duas vezes), os pedestres não se consideram nem um pouco responsáveis pelo incidente. Que fique claro que não estou defendendo os ciclistas. Mas, para quem está vendo de fora e é bem informado sobre o assunto, com certeza afirmo: A CULPA FOI DOS DOIS.

 

 

Mas vamos a outro ponto que me interessa neste relato: A EDUCAÇÃO DAS PESSOAS! A ciclovia é uma área que pode ser construída junto à rua, na calçada, e tem SEPARAÇÃO FÍSICA das mesmas. É EXCLUSIVA para deslocamento de bicicletas, não sendo permitido outro tipo de veículo. A ciclovia tem limite de velocidade, 20km/h, e pode ser de duas mãos ou mão única. Neste último caso, deve ter opção dos dois lados da via ou calçada. Se você quer andar a mais de 20km/h, então vá para faixa de rodagem.

Tudo certo? NÃO, TUDO ERRADO! Pessoas 100% desinformadas (não vou chamar de ignorantes, porque sei que não são), alegam com veemência, que o pedestre tem preferência em qualquer lugar. ERRADO! Se tem realmente, então anda entre os carros no meio das faixas. Vai firme! Tem livre arbítrio, mas lugar de pedestre ainda é na calçada e ponto final. E cuidado, porque se acha que pode andar na rua, pode ser atropelado. E aí não adianta culpar o motorista.

 

Voltando à velocidade limite. Está no código! Duvida? Lamento! Vai se decepcionar, porque está! E o que eu mais vejo nas ciclovias da cidade são as pessoas aparentemente usuárias andando a mais de 20km/h, fora o desrespeito às regras gerais, tipo andando do lado de outro ciclista, na contramão da Ciclovia. Olha essa foto:

 

 

Feio? Deixa contar essa história. Vinha pela ciclovia direção Centro-Bairro. Próximo do Supermercado Zaffari Ipiranga, eu já tinha visualizado um rapaz vindo sem as mãos e zigue-zaguando pela ciclovia (só vi que estava de fones de ouvido depois). Eu reduzi a minha velocidade, deveria estar próximo de 20km/h, e bem neste ponto tem um grande poste de luz que bloqueia visão, mas dá a preferência de quem vem do Bairro para o Centro. Eu não percebi que o rapaz estava bem mais rápido e não imaginei que ele não fosse vencer a curva.

O resultado foi um colisão frontal, onde eu consegui pular da bike, mas minha mão ficou pressa entre o meu sti (alavanca de freio e trocador de marchas) e o guidão da bike do rapaz, causando esse machucado (3 pontos na ponta do dedo e 4 na pela da articulação do dedo). A primeira coisa que fiz foi saber se o rapaz estava bem. Mas, ele não gostou muito do estrago na bike dele. Resumindo: levantei minha bike e fui embora com dor e sangrando. O que eu poderia fazer? Brigar, bater boca, explicar que a culpa era dele?

 

Ah, e você não sabia que as regras de trânsito valem na ciclovia? Sim, as mesmas regras. E lamento mais uma vez se você não sabia disto também. Pior que isso são os entregadores que usam bike, e os que têm a bike adaptada com tração (motor) elétrica e à combustão, que promovem que essas “bicicletas” tranquilamente alcancem muito mais que 20km/h de velocidade. Bom, então vamos andar na faixa de rodagem, na via junto com os carros. Você pode? Sim, pode! Leia o CTB, está lá. É PERMITIDO O USO DA FAIXA, JUNTO A CALÇADA E OCUPANDO A FAIXA! Não tem em nenhum lugar do CTB que o ciclista seja obrigado a usar a ciclovia.

 

 

A construção de uma ciclovia demanda muito estudo e, em geral, sua viabilidade é cara, mas necessária em grandes centros urbanos. Temos um problema na legislação sobre, por exemplo, bicicletas elétricas e algumas “invenções” com motor à combustão. Não tem legislação específica, mas o CTB é claro: na ciclovia não é permitido outro tipo de bicicleta que não seja movida por tração humana. Muitos usuários têm adotado essa nova opção de bicicleta e estão EQUIVOCADAMENTE fazendo uso das ciclovias, se deslocando em velocidades muito superiores a 20km/h. Se fizer uma busca no número de acidentes em ciclovia e similares, vocês verão que aumentou por conta disso e também por causa de pedestres que usam a ciclovia para caminhar ou correr, o que NÃO É PERMITIDO.

 

 

Com muita frequência me desentendo (e me envergonho disso) com motoristas DESINFORMADOS, com celular na mão, filmando, desrespeitando os 1,5m de distância, que a legislação OBRIGA o motorista manter seu veículo longe de mim, dos meus amigos e de outros ciclistas. Fora quando escuto: “vai pra calçada abobado! Quer morrer atropelado?” Será que ele está me avisando ou me ameaçando? Aliás, pergunto, pode andar de bike na calçada? O CTB PROIBE trânsito de ciclistas na calçada. Deixa-me ser mais claro: DESCE DA BIKE E CONDUZ ELA! A calçada é PREFERENCIALMENTE dos PEDESTRES. Você acha que não tem existe ciclista mal-educado? Então vou te contar uma coisa: a pessoa que é mal-educada pedalando, será mal-educada como motorista e como pedestre. Ou seja, o seu comportamento será o mesmo em qualquer uma dessas condições.

 

Outro dia eu me desentendi com um senhor na Beira Rio (Av. Edivaldo Pereira Paiva ou simplesmente Orla do Guaíba) que me insultava, jogou seu veículo para cima de mim e de outro ciclista que estava junto comigo. Meu grande erro foi ter ido atrás e batido boca com ele. Eu xinguei uma pessoa que tem idade para ser meu pai. Desrespeitei aquela pessoa e nada justifica minha ATITUDE INADEQUADA, mas eu estava de saco cheio deste tipo de situação e, sinceramente, perdi a razão. Deveria ter ficado quieto. Devia ter feito uma denúncia. Devia ter pegado a placa e feito uma queixa no órgão de trânsito responsável. Mas não. A minha indignação vem de tempos.

 

A bicicleta tem PRIORIDADE NA VIA, e os veículos devem adotar uma distância mínima regulamentar que já citei: 1,5m de distância. Ciclista flagrado por agente de trânsito descumprindo as regras pode ser multado e até ter sua bicicleta recolhida. Então, vamos procurar ser mais educados também. Vamos entender as prioridades: o maior cuida do menor e ponto. Os motoristas em seus veículos devem ter cuidado sobre motociclistas, ciclistas e pedestres. Assim como motociclistas sobre os ciclistas e pedestres, e assim sucessivamente. Mas que fique bastante claro aqui: TODOS DEVEM RESPEITAR UNS AOS OUTROS E SEGUIR DE FORMA CORRETAS AS REGRAS DE CONVIVÊNCIA NO TRÂNSITO E FORA DELE TAMBÉM. E, antes de sairmos justificando por aí que somos um país com educação ruim, política ruim, saúde ruim, que façamos uma reflexão das nossas atitudes e do nosso comportamento. Sou responsável pelas minhas atitudes e escolhas, e não pela dos outros.

Essa mania de Síndrome de Vira Latas que o brasileiro criou em relação a outros países considerados mais desenvolvidos, de se menosprezar, se diminuir, isso é uma BOBAGEM! O que falta para nós é saber respeitar mais o próximo, sermos mais tolerantes e saber principalmente usar melhor o nosso bom senso. Aliás, EXERCITAR MAIS ESSAS VIRTUDES.

 

            Finalizo esse texto deixando à disposição um artigo muito interessante do Reynaldo Lirio de Mello: OS CICLISTAS E AS POLÍTICAS CICLOVIÁRIAS EM PORTO ALEGRE. Só colocar no Google, está disponível em PDF.

 

(ISSN: 1984-8781 – Anais XVIII ENANPUR 2019. Código verificador: DGpFRGqOhLQc verificar autenticidade em: http://anpur.org.br/xviiienanpur/anais)

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