Rodrigo Quevedo no blog da Alster - Transformamos o esporte a partir da colaboração

Sob Pressão… atmosférica!

Desde os meados de 400 a.C. que se tem alguma notícia de problemas clínicos relacionados à altitude e pressão atmosférica. Mas, as primeiras descobertas fundamentais que abriram os caminhos para se compreender o que acontece com a pressão atmosférica e seus gases, foi atribuída a cientistas dos séculos XVII e XIX.

 

Vamos começar por Evangelista Torricelli, o italiano que em 1644 construiu o primeiro barômetro de mercúrio, aparelho que permite a obtenção de medidas precisas da pressão atmosférica. Por questões de segurança e saúde, os barômetros passaram a ser com coluna de água, ao invés de mercúrio, substância altamente cancerígena. E os mais modernos são com relógios analógicos ou digitais.

 

Em 1648, o francês Blaise Pascal (ele mesmo, da unidade Pascal), demonstrou que a pressão se alterava com a altitude: era reduzida em altitudes elevadas. Como ele demonstrou isso? Pediu para o seu cunhado Florin Perier subir o Monte Puy de Dome, um vulcão extinto nos arredores de Auvergne, França, que tem 1464m, com um barômetro preso as suas costas. À medida que subia, ele percebeu que a coluna diminuía, provando que a pressão diminuía.

 

A partir daí, levou algum tempo até que outro francês, Antoine-Laurent Lavoisier, descreveu, em 1777, a composição dos gases do ar (foi o cara que disse: “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”).

 

Em 1801, John Dalton postulou a pressão parcial dos gases, ou seja, a soma das pressões parciais dos gases é a pressão total exercida na mistura. Com base nestes postulados, se concluiu que, à medida que aumenta altitude, as moléculas de gases vão se afastando umas das outras. E isso é o que chamamos de ar rarefeito. Importante salientar que as concentrações não mudam, são iguais ao nível do mar.

 

E o que isso tem a ver com exercício e esporte? Simplesmente tem tudo a ver. Nosso organismo depende de oxigênio para promover a produção de energia que nos mantêm vivos. É a partir da combustão promovida pelo oxigênio e combinado a qualquer substrato energético oxidativo (carboidrato, lipídios ou proteína) que se gera energia. Ou seja, para escalar uma montanha, correr ou pedalar em trilhas ou estradas que tenha enormes ganhos de elevação, é necessário energia. Mas e os efeitos? Quando começamos a sentir os efeitos da altitude?

 

Os estudos, e não são poucos, mostraram que até 1500m, de modo geral, não sentimos os efeitos da altitude. Obviamente que devemos levar em consideração as respostas individuais de cada pessoa, mas até 1500m está tudo certo. A partir de 1600m é necessário adaptações ambientais e fisiológicas. E, assim, calcularam o tempo de adaptação. A 1600m, pelo menos uma semana; 2200m, duas semanas; 2800m, três semanas, ou seja, a cada 600m a mais, se acrescenta 1 semana. Esse período de adaptação vale para qualquer esporte, escalada, ciclismo, corrida, pois qualquer um pode ser praticado nestas condições.

 

Agora, imagina a seguinte situação: uma equipe brasileira de futebol que está disputando a Copa Libertadores e tem uma partida contra um adversário boliviano a 3500m de altitude. Essa equipe precisaria de 4 semanas de adaptação. Inviável para os clubes. E qual seria estratégia? Treinar em uma cidade próxima que fique até 1500-1600m de altitude e viajar horas antes da partida, assim os efeitos serão menores e a partida poderá ocorrer sem maiores prejuízos as equipes visitantes. É comum que se ofereça oxigênio no intervalo das partidas, caso algum atleta venha a sentir antecipadamente os efeitos da altitude.

 

Agora uma comparação muito interessante do meu ponto de vista. Pensando em corridas de velocidades, corridas de meio fundo e corridas de fundo, como seria o desempenho dos atletas se comparados os desempenhos na altitude e ao nível do mar? Vamos comparar as Olímpiadas de Tóquio em 1964 e da Cidade do México em 1968. Tóquio está ao nível do mar, enquanto a Cidade do México está a 2210m acima do nível do mar (Tabelas abaixo).

 

Local/prova 100m 200m 400m 800m 1500m
Tóquio

1964

10,0s 20,3s 45,1s 1’45’’ 3’38’’
Cidade do México

1968

9,9s 19,3s 43,8s 1’44’’ 3’34’’

 

Observem que, ao nível do mar, as provas de velocidade (100m e 200m), meio fundo (400m e 800m), os resultados em Tóquio foram piores que na Cidade do México, a 2210m de altitude, com exceção dos 1500m.

 

Local/prova 3000m obstáculos 5000m rasos 10000m rasos Maratona 42,2km 50km marcha
Tóquio

1964

8’,30’’ 13’48 28’24’’ 2h12’’ 4h11’’
Cidade do México

1968

8’,51’’ 14’05’’ 29’’27’’ 2h20’’ 4h20’’

 

Já as provas de fundo, os melhores resultados foram em Tóquio. Mas qual a explicação? Provas de velocidade e meio fundo são executadas em curto espaço de tempo e em alta velocidade. Nestas condições não é necessária uma grande quantidade de oxigênio para ativar o sistema aeróbio intensivo (de intensidade) para cumprir a distância, mesmo em ambiente com ar mais rarefeito. Outra descoberta que favoreceu esses resultados foi o próprio ar rarefeito. Como as moléculas de ar estão mais afastadas umas das outras, menos atrito e resistência impedia a progressão dos atletas.

 

Para as provas de fundo, a lógica é ao contrário. Os atletas na Cidade do México dependiam de oxigênio para oxidação dos substratos energéticos. A demanda era baixa, tinha pouca oferta, o que dificultava a sua capacidade aeróbia, mesmo havendo menor atrito e resistência do ar. O desempenho foi pior que Tóquio.

 

Finalmente, você deve estar se perguntando sobre o tempo do 1500m na Cidade do México, que foi exceção à regra. Lembra da individualidade biológica de cada atleta e suas adaptações? Em 1968, na Cidade do México o campeão olímpico dos 1500m foi Kipchoge Keino, atleta queniano que nasceu, cresceu, treinou e competiu no Quênia em locais com altitudes semelhantes à da Cidade do México, ou seja, ele já estava naturalmente adaptado aquela condição ambiental. Isso favoreceu não apenas a sua vitória, mas a quebra do recorde com 3’34’’9, colocando uma diferença de 20m sobre Jim Ryun, meio fundista americano favorito à medalha de ouro.

 

Poderia ficar falando horas sobre o assunto. Isso que nem toquei em temas como treinamento em altitude, esporte abaixo do nível do mar, doenças relacionadas à pressão atmosférica, adaptações metabólicas, etc. Temas que virão na sequência. Gostou? Comenta aí então. Até a próxima!

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